{"id":924,"date":"2019-07-14T12:15:41","date_gmt":"2019-07-14T12:15:41","guid":{"rendered":"http:\/\/icc.diocesedeangra.pt\/?p=924"},"modified":"2019-07-30T09:18:55","modified_gmt":"2019-07-30T09:18:55","slug":"homilia-na-celebracao-da-festa-do-espirito-santo-em-ponta-delgada-por-dom-carlos-azevedo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/icc.diocesedeangra.pt\/index.php\/2019\/07\/14\/homilia-na-celebracao-da-festa-do-espirito-santo-em-ponta-delgada-por-dom-carlos-azevedo\/","title":{"rendered":"Homilia na celebra\u00e7\u00e3o da festa do Esp\u00edrito Santo em Ponta Delgada por Dom Carlos Azevedo"},"content":{"rendered":"<p>Matriz. Ponta Dlegada.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Car\u00edssimos irm\u00e3os e irm\u00e3s<\/p>\n<p>Ao celebrar, nesta cidade de Ponta Delgada, a festa do Esp\u00edrito Santo, visita-nos uma palavra surpreendente. Vamos acolher esta proposta renovadora do Esp\u00edrito para que a alegria da festa seja mais plena, mais profunda, crie mais proximidade.<\/p>\n<p>Hoje quero convosco apenas saborear a proximidade, pois essa \u00e9 uma realidade desta festa. A proximidade de Deus, que cria comunh\u00e3o com os outros como pr\u00f3ximos, \u00e9 obra do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li>A Palavra est\u00e1 perto e requer acolhimento<\/li>\n<\/ol>\n<p>H\u00e1 uma pergunta que me fazem muitos contempor\u00e2neos: \u201cComo encontrar Deus? Como fazer uma experi\u00eancia que nos transforme?\u201d Ouvimos as \u00faltimas palavras de um discurso de Mois\u00e9s: \u201c<em>esta palavra est\u00e1 perto de ti, est\u00e1 na tua boca e no teu cora\u00e7\u00e3o, para que a possas por em pr\u00e1tica. N\u00e3o est\u00e1 cima das tuas for\u00e7as, nem fora do teu alcance. N\u00e3o est\u00e1 no c\u00e9u, n\u00e3o est\u00e1 para al\u00e9m dos mares\u201d.<\/em> O sentido da nossa vida n\u00e3o est\u00e1 em normas exteriores, mas num agir que nos aproxima de Deus. Importa uma convers\u00e3o interior para que a Palavra passe das t\u00e1buas de pedra para o cora\u00e7\u00e3o de carne, passe de letra da b\u00edblia para as atitudes vitais. Quem proporciona esta aproxima\u00e7\u00e3o? O Esp\u00edrito Santo. A nova vida em Cristo \u00e9 sumamente concreta. Experiencia-se no simplesmente humano, no quotidiano. A comunh\u00e3o com a vida nova em Cristo gera abandono existencial ao Pai, permite dar sentido \u00e0 vida concreta. \u00c9 o Esp\u00edrito Santo que permite esta a\u00e7\u00e3o discreta e profunda.<\/p>\n<p>Conhecer, amar e incarnar na nossa vida esta palavra de amor n\u00e3o \u00e9 estranho, long\u00ednquo e inacess\u00edvel. Os preceitos do nosso Deus que o Esp\u00edrito Santo grava no nosso cora\u00e7\u00e3o d\u00e3o alegria, n\u00e3o oprimem, n\u00e3o privam da liberdade, indicam um projeto feliz. Agir seguindo a Palavra, n\u00e3o implica renunciar \u00e0 nossa autonomia, mas agir segundo a verdade e a sabedoria, para sermos autenticamente livres. Tantos condicionamentos gerados pelas coisas, pelas pessoas, por n\u00f3s pr\u00f3prios podem tornar-nos escravos e distanciar-nos, privar-nos da verdadeira alegria.<\/p>\n<p>\u00c9 o Esp\u00edrito Santo que hoje continua nesta comunidade a dar-nos abertura para entender a Palavra de Deus. \u00c9 ele que transforma a oferta da nossa vida e trabalho para que tudo se conjugue a favor do bem comum.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as \u00e0 for\u00e7a invenc\u00edvel do Esp\u00edrito podemos mover montanhas que parecem intranspon\u00edveis. Se dermos espa\u00e7o em n\u00f3s \u00e0 presen\u00e7a do Esp\u00edrito Santo ele retira-nos do isolamento, da concha indiferente e abre-nos \u00e0 comunh\u00e3o, ele \u00e9 luz para discernir questi\u00fanculas a abandonar e para tra\u00e7ar caminho de sensibilidade ao essencial, de aten\u00e7\u00e3o a quem vive ao meu lado. A respira\u00e7\u00e3o de Deus n\u00e3o se d\u00e1 com meros consumidores de religi\u00e3o, sem ousadia que transpire em testemunho mission\u00e1rio.<\/p>\n<p>Se dermos espa\u00e7o ao Esp\u00edrito Santo deixaremos uma vida banal, pautada pela mediocridade superficial para inaugurar dinamismos de sabedoria e fortaleza resistente. Ele agita a vida dos pastores e das comunidades e abre-as a um futuro novo. A inspira\u00e7\u00e3o de Deus, que conduz a hist\u00f3ria do princ\u00edpio ao fim, n\u00e3o se d\u00e1 com a mediocridade ressequida, com a estagna\u00e7\u00e3o pantanosa.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li>Outra proximidade se evidencia na Palavra hoje escutada.<\/li>\n<\/ol>\n<p>A pergunta do doutor da lei, um perito jurista, era pr\u00f3pria do debate do seu tempo: Quem \u00e9 o\u00a0pr\u00f3ximo a quem amar? Qual mandamento \u00e9 mais importante, de qual depende a vida eterna? Era este um problema que preocupava verdadeiramente. Alguns fariseus e ess\u00e9nios consideravam como pr\u00f3ximos apenas aqueles que faziam parte dos seus grupos e exclu\u00edam os demais. Pensavam que o mandamento do amor n\u00e3o inclu\u00edsse os pag\u00e3os, os id\u00f3latras, mas somente os verdadeiros crentes. Desaconselhavam a rela\u00e7\u00e3o com eles e, sobretudo, dar-lhes ajuda. Havia um profundo desacordo e eram muito vivas as discuss\u00f5es entre as diversas correntes: sect\u00e1rios, ortodoxos e liberais.<\/p>\n<p>Jesus, chamado mestre, com paci\u00eancia e com sabedoria, leva o doutor da lei a ir ao centro da mensagem. O doutor da lei conhecia a resposta. A vida eterna manifesta-se no amor a Deus e ao pr\u00f3ximo. Jesus afirma: &#8220;tens raz\u00e3o, falta-te fazer segundo a resposta que deste&#8221;. Amar significa viver e viver, realmente, \u00e9 amar. O Senhor Jesus parte deste princ\u00edpio v\u00e1lido em todos os tempos. H\u00e1 a tenta\u00e7\u00e3o de esquecer esta rela\u00e7\u00e3o e permanecer satisfeitos com formas exteriores de piedade. Deus espera daqueles que ama uma aproxima\u00e7\u00e3o viva, intensa e duradoura; pessoas que n\u00e3o se dividem, cora\u00e7\u00f5es \u00edntegros.<\/p>\n<p>Sabemos que uma par\u00e1bola como a do samaritano de hoje \u00e9 uma pequena hist\u00f3ria para fazer compreender coisas importantes\u00a0a quem escuta.<\/p>\n<p>Quem \u00e9 o nosso pr\u00f3ximo?<\/p>\n<p>O nosso pr\u00f3ximo \u00e9 aquele que tem necessidade da nossa ajuda e do nosso amor. A nossa par\u00e1bola evidencia que se pode dizer que se ama a Deus e passar ao lado do pr\u00f3ximo. Nem a lei, nem a liturgia, nem os sacrif\u00edcios\u00a0 bastam para salvar o seu humano. A igreja \u00e9 o albergue, o lugar da miseric\u00f3rdia. Como sublinha o papa Francisco: &#8220;<em>n\u00e3o \u00e9 autom\u00e1tico que quem frequenta a casa de Deus e conhece a sua miseric\u00f3rdia saiba amar o pr\u00f3ximo. N\u00e3o \u00e9 autom\u00e1tico! Tu podes conhecer toda a b\u00edblia, tu podes conhecer todas as rubricas lit\u00fargicas, tu podes conhecer toda a Teologia, mas do conhecer n\u00e3o \u00e9 autom\u00e1tico o amar: amar tem uma estrada, ocorre intelig\u00eancia, mas tamb\u00e9m algo mais&#8230; O sacerdote e o levita veem mais ignoram; olham mas n\u00e3o proveem. Contudo, n\u00e3o existe verdadeiro culto se ele n\u00e3o se traduz em servi\u00e7o ao pr\u00f3ximo. Nunca esque\u00e7amos: perante o sofrimento de tanta gente esgotada pela fome, pela viol\u00eancia e pelas injusti\u00e7as, n\u00e3o podemos permanecer espectadores. Ignorar o sofrimento do ser humano, o que significa? Significa ignorar a Deus! Se eu n\u00e3o me aproximo daquele homem, daquela mulher, daquela crian\u00e7a, daquele velhinho ou velhinha que sofrem, n\u00e3o me aproximo de Deus<\/em>&#8221; (Audi\u00eancia,\u00a0 27-04-2016).<\/p>\n<p>O cume da par\u00e1bola verifica-se no momento em que o samaritano &#8220;teve compaix\u00e3o&#8221;. Movido pelo amor e pela piedade, por uma miseric\u00f3rdia visceral, movido desde o \u00edntimo, faz todo o poss\u00edvel por cuidar do homem abandonado na estrada. Eis uma gra\u00e7a fant\u00e1stica! O estrangeiro previne tamb\u00e9m com o que acontecer\u00e1 depois da sua partida. Mant\u00e9m a proximidade mesmo na aus\u00eancia f\u00edsica. Cria-se uma rela\u00e7\u00e3o entre samaritano e ferido. N\u00e3o deixa nada ao acaso. Regressar\u00e1 para recompensar a fidelidade do hospedeiro. Com esta garantia acaba a hist\u00f3ria, a par\u00e1bola de Jesus. A verdadeira miseric\u00f3rdia n\u00e3o \u00e9 sentimento mas uma a\u00e7\u00e3o completa que leva a tomar cuidado do outro, mesmo se culturalmente long\u00ednquo. Uma s\u00e9rie de verbos o evidencia: \u201c<em>aproximou-se, ligou-lhe as feridas, colocou-o sobre a sua pr\u00f3pria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirou duas moedas e deu-as ao estalajadeiro e disse: &#8220;trata bem dele e o que gastares a mais eu te pagarei quando voltar<\/em>&#8220;. A compaix\u00e3o visceral, profunda, leva a tomar um cuidado integral, real e concreto de quem tem necessidade. N\u00e3o se trata de uma boa a\u00e7\u00e3o isolada, mas de atitude social e politica permanente.<\/p>\n<p>O bom samaritano joga o papel essencial de quem se empenha pol\u00edtica e socialmente. Um cidad\u00e3o que desdenhe da proximidade n\u00e3o \u00e9 digno deste nome. A compaix\u00e3o de cora\u00e7\u00e3o do verdadeiro cidad\u00e3o deve tornar-se tamb\u00e9m compaix\u00e3o da mente. \u00c9 necess\u00e1rio que ame prevendo as necessidades do futuro, entrevendo as urg\u00eancias de amanh\u00e3, encontrando um sistema para prevenir os danos. Todas as pessoas empenhadas na pol\u00edtica e nas quest\u00f5es sociais devem estar munidas de uma grande capacidade de discernimento e de convers\u00e3o: discernimento dos sinais dos tempos, intui\u00e7\u00e3o das grandes utopias que irrompem no hoje e se tornam j\u00e1 carne e sangue, perce\u00e7\u00e3o da paz e fruto da justi\u00e7a. Tomar cuidado do mal do mundo at\u00e9 ao fim da hist\u00f3ria \u00e9 tarefa crist\u00e3. Ter miseric\u00f3rdia, numa Europa em crise profunda, \u00e9 compreender\u00a0 a amplitude dos problemas com as suas consequ\u00eancias econ\u00f3micas, sindicais, empresariais e associativas. \u00c9 mover energia para um novo modelo de desenvolvimento que permite a cada ser humano ser amado. O modelo de desenvolvimento que domina o mundo complexo e global obriga-nos a definir estrat\u00e9gias de interven\u00e7\u00e3o eficaz, criadoras de proximidade. A exclus\u00e3o \u00e9 monstruosa. Nada vale a ret\u00f3rica. Nada vale o populismo demag\u00f3gico. Valem interven\u00e7\u00f5es que o Esp\u00edrito Santo inspira, capazes de articular a economia, a pol\u00edtica, as culturas, a ci\u00eancia, a pedagogia social para inventarem a proximidade.\u00a0\u00a0O Esp\u00edrito Santo move-nos, inclina-nos para cuidar com ternura dos males da nossa sociedade. O Esp\u00edrito Santo aproxima-nos sem medo da pobreza, do sofrimento. Esse \u00e9 o \u00fanico modo para dizer hoje que Deus ama a humanidade. Caros irm\u00e3os e irm\u00e3s: isto acontece hoje entre v\u00f3s, nesta festa do Espirito Santo. Demos gra\u00e7as, fa\u00e7amos eucaristia por tanta proximidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>+ Carlos Moreira Azevedo<\/p>\n<p>Conselho Pontificio da Cultura<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Matriz. 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